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sexta-feira, 15 de abril de 2011

amor bonito



Talvez seja tão simples, tolo e natural que você nunca tenha parado para pensar:
Aprendam a fazer bonito seu amor.
Ou fazer o seu amor ser ou ficar bonito.
Aprenda, apenas, a tão difícil arte de amar bonito.
Gostar é tão fácil que ninguém aceita aprender...
Tenho visto muito amor por aí.
Amores mesmo: bravios, gigantescos, descomunais, profundos, sinceros, cheios de entrega, doação e dádiva.
Mas esbarram na dificuldade de se tornar bonitos.
Apenas isso: bonitos, belos ou embelezados, tratados com carinho, cuidado e atenção.
Amores levados com arte e ternura de mãos jardineiras.
Aí, esses amores que são verdadeiros, eternos e descomunais, de repente se percebem ameaçados e tão somente porque não sabem ser bonitos: cobram, exigem, rotinizam,descuidam, reclamam, deixam de compreender, necessitam mais do que oferecem, precisam mais do que atendem, enchem-se de razões.
Sim, de razões.
Ter razão é o maior perigo no amor.
Quem tem razão sempre se sente no direito (e o tem) de reivindicar, de exigir justiça, equidade, equiparação, sem atinar que o que está sem razão talvez passe por um momento de sua vida no qual não possa ter razão.
Nem queira!!!
Ter razão é um perigo: em geral, enfeia um amor, pois é invocado com justiça, mas na hora errada.
Amar bonito é saber a hora de ter razão.
Ponha a mão na consciência. Você tem certeza de que está fazendo o seu amor bonito?
De que está tirando do gesto, da ação, da reação, do olhar, da saudade, da alegria do encontro, da dor do desencontro a maior beleza possível?
Talvez não.
Cheio ou cheia de razões, você separa do amor apenas aquilo que é exigido por suas partes necessitadas, quando talvez dele devesse pouco esperar, para valorizar melhor tudo de bom que de vez em quando ele pode trazer.
Quem espera mais do que isso sofre e, sofrendo, deixa de amar bonito.
Sofrendo, deixa de ser alegre, igual, irmão, criança.
E sem soltar a criança, nenhum amor é bonito.
Não tema o romantismo. Derrube as cercas da opinião alheia.
Faça coroas de margaridas e enfeite a cabeça de quem você ama.
Saia cantando e olhe alegre.
Recomenda-se: encabulamentos, ser pego em flagrante gostando, não se cansar de olhar e olhar, não atrapalhar a convivência com teorizações, adiar sempre se possível com beijos 'aquela conversa importante que precisamos ter', arquivar, se possível, as reclamações pela pouca atenção recebida.
Para quem ama, toda atenção é sempre pouca.
Quem ama feio não sabe que pouca atenção pode ser toda a atenção possível.
Quem ama bonito não gasta tempo dessa atenção cobrando a que deixou de ter.
Não teorize sobre o amor (deixe isso para nós, pobres escritores que vemos a vida como criança de nariz encostado na vitrine cheia de brinquedos dos nossos sonhos); não teorize sobre o amor, ame.
Siga o destino dos sentimentos aqui e agora.
Não tenha medo exatamente de tudo o que você teme, como: a sinceridade, abrir o coração, contar a verdade do tamanho do amor que sente; não dar certo e depois vir a sofrer (sofrerá de qualquer jeito).
Jogue pro alto todas as jogadas, estratagemas, golpes, espertezas, atitudes sabiamente eficazes (não é sábio ser sabido): seja apenas você no auge de sua emoção e carência, exatamente aquele você que a vida impede de ser.
Seja você cantando desafinado, mas todas as manhãs.
Falando besteiras, mas criando sempre.
Gaguejando flores.
Sentindo o coração bater como no tempo do Natal infantil.
Revivendo os caminhos que intuiu em criança.
Sem medo de dizer eu quero, eu estou com vontade.
Deixe o seu amor ser a mais verdadeira expressão de tudo que você é.
Se o amor existe, seu conteúdo já é manifesto.
Não se preocupe mais com ele e suas definições.
Cuide agora da forma do amor:
Cuide da voz.
Cuide da fala.
Cuide do cuidado.
Cuide de você.
Ame-se o suficiente para ser capaz de gostar do amor e só assim poder começar a tentar fazer o outro feliz.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Mario Prata - Crônicas

                                           

Dizem que Paulo Coelho é mago. Mentira! Mago é o Mario Prata, que consegue dar voz às palavras. Pois é assim que me sinto quando leio as crônicas do Prata. Parece que ele puxou a cadeira, e ta aqui, bem ao meu lado, contando uma história. Tudo bem, admito que peguei pesado com o Paulo Coelho e vou consertar: o Paulo é mago, mas o Mario Prata é mais mago que ele!

Brincadeiras à parte, pois adoro e já li muita coisa dos dois escritores, o que quero dizer é que o Mario Prata escreve conversando com a gente, e essa facilidade é uma coisa mágica sim. Não sei se no momento ele está trabalhando em algum jornal ou revista como cronista, mas me parece que não. É uma pena.

Tirei um dia desses para fuçar uns sites, e acabei navegando até um site autorizado do Prata, onde tem várias crônicas, além de outra coisas. Nem vi as outras coisas. Minha navegação terminou naquele porto. Eu estava interessado nas crônicas. Pois devorei as crônicas do Mário outra vez. Digo outra vez, pois já havia lido todas as do Estadão, no próprio site, quando ele era colunista desse jornal. E vou confessar que ri novamente com as mesmas coisas hilariantes que ri da primeira vez. Simplesmente genial.

Aí você me pergunta que diabos o Mario Prata tem a ver com anos 80 pra ganhar um post no blog, e eu respondo: p......... nenhuma. Não tem nada a ver com os anos 80, mas aqui também se escreve, e se você leu esse post até aqui, é porque deve gostar de ler. E se gosta de ler, aproveite a dica e vá ler Mario Prata. Se não gosta, e leu até o fim por não ter nada pra fazer, e ainda achou o texto péssimo, não desanime. Leia Mario Prata que vai começar a gostar. Eu garanto...

Deixo abaixo o endereço de 5 crônicas, e ao final o endereço do site. Divirtam-se.

A Máquina da Canabrava
http://www.marioprataonline.com.br/obra/cronicas/a_maquina_da_canabrava.htm

O Pernilongo
http://www.marioprataonline.com.br/obra/cronicas/o_pernilongo.htm

O dia que Chico fez 27 anos e meio
http://www.marioprataonline.com.br/obra/cronicas/dia_que_o_chico_fez_27_anos_e_me.htm

O amigo que trabalhava e o amigo que bebia
http://www.marioprataonline.com.br/obra/cronicas/amigo_que_trabalhava.htm

Hoje não tem crônica
http://www.marioprataonline.com.br/obra/cronicas/hoje_nao_tem_cronica.htm

Site autorizado do Mário Prata: http://www.marioprataonline.com.br/

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Substituímos

Vivemos nos esforçando pra criar laços inquebráveis com as pessoas, pra deixar marcas nelas pra que elas possam se lembrar de nós quando já não formos um presente constante, lutamos contra as diferenças, contra as distâncias, contra preconceitos, contra tudo que impede de duas pessoas que criam um elo entre si, ficarem juntas. Na amizade, na família, no amor entre homem e mulher, em todas as relações buscamos ser essenciais.
Então o tempo passa, somos substituídos algumas vezes . Substituímos uma namorada por outra, um irmão por um amigo, um amigo por outro amigo, a família de sempre por uma nova família, a casa antiga por uma casa nova, substituímos tudo. Seja por brigas, por andarmos em direções diferentes, por interesses distintos, por qualquer que seja o motivo.
Derepente chegamos a uma conclusão óbvia que as pontes que construímos entre as pessoas, muitas vezes não aguentam as tempestades, e se quebram, e ficam perdidas no tempo. Em algum lugar dentro de nós mesmos , sempre guardamos aqueles que um dia foram nosso presente mais valioso e que hoje se tornou apenas uma lembrança.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Por que você não pergunta?

Se fizessem uma pesquisa entre mulheres e perguntassem qual o maior defeito masculino, aposto que a imaturidade apareceria em primeiríssimo lugar. (Insegurança, barriga e palitar os dentes viriam em segundo, terceiro e quarto, respectivamente). Se, na mesma pesquisa, quisessem saber qual a atitude masculina mais exemplar dessa imaturidade, acredito que a esmagadora maioria apontaria a nossa recusa em parar o carro e pedir informação a um pedestre, quando estamos perdidos. (Em segundo, terceiro e quarto, viriam: fugir de discussões de relacionamento, querer alugar sempre filmes em que coisas explodem e, em dias de jogo, meter a cara na janela e fazer sugestões pouco elegantes aos entusiastas das outras agremiações).

Que somos imaturos, não há como negar. Trata-se, provavelmente, de um comportamento com raízes fisiológicas: por não termos que gestar ou amamentar as crias, por trazermos em nossos corpos milhões de células reprodutivas, prontas para entrar em ação, do surgimento dos primeiros pêlos ao ressoar do último suspiro, encaramos o imperativo bíblico e biológico de crescermos e nos multiplicarmos dando mais atenção ao segundo termo do que ao primeiro. Daí certo pendor para a fanfarronice, a imaturidade e suas conseqüências: preferimos a trilogia intergaláctica de Luke Skywalker à Trilogia das cores, de Kieslowski, evitamos ao máximo discutir o relacionamento e, no meio de um domingo, assistindo a um jogo de futebol, perdemos subitamente o controle e gritamos “chuuuupa porco!” pela janela.

A lista de nossas infantilidades é longa, mas não acredito que a recusa em perguntar o caminho nela se inclua. Negar-se a pedir informação – mesmo depois de horas errando por arrabaldes desconhecidos, de já estarmos ficando desidratados e o carro, sem gasolina – é uma decisão adulta e deliberada, cujo intuito é preservar a nossa honra.

Ora, o que é a humanidade senão a eterna e incessante guerra de todos contra todos? Num passado não muito distante — ou ainda hoje, em muitos lugares – a batalha era literal: vencia-se o inimigo, punham-se suas baixelas, candelabros e mulheres no lombo do nosso cavalo, incendiava-se a aldeia e ia-se embora, beber aguardente e comer javali. Hoje, a guerra é mais sutil. Veja os homens na estrada, mudando de pista desesperadamente ao aproximarem-se do pedágio, em busca da cabine com menos fila. Veja as mulheres malhando na academia. Veja ambos os sexos fazendo pós-graduações, clareamento dentário, regime, comendo o pão que o diabo amassou, para que? Para triunfar sobre o próximo. Para poder dizer, como os maços de Marlboro: veni, vidi, vici.

Numa sociedade individualista, na era da informação, o que significa perguntar o caminho? Render-se. Largar a espada, prostrar-se diante de um inimigo e dizer: “sou fraco e tolo, oh pedestre. Tu és forte e sábio. Por favor, poderias informar-me onde é a Rua Coronel Faustiniano, esquina com a Don Francisco Lapertino, próximo à Praça da Misericórdia?”

Como reage o pedestre? Ora, com a crueldade de um guerreiro que tem o oponente abatido diante de si. Te maltrata. Começa fingindo um sustinho irritante, “A Coronel Faustiniano?!”, insinuando que você está muito, mas muito perdido. Se tem um amigo ao lado, o olha com um sorriso no canto da boca. Talvez até solte um “nossa, tá longe…” ou “xiii, amigão…”. Esse escárnio é o butim que o pedestre leva com a vitória sobre o motorista; esse sorriso no canto da boca é o resquício do que um dia foi pilhagem, empalações, incêndio.

Você tem pressa. Sua mulher, no banco de passageiro, mais ainda, mas o pedestre saboreia a vitória, fazendo perguntas retóricas: “cê conhece a Adolfo Arrais?”. Claro que você não conhece. É óbvio que não é dali. Você abaixa a cabeça: “Não”. Ele arqueia as sobrancelhas, de leve, como quem diz, “se não conhece a Afonso Arrais, fica difícil”. Suspira. “A Marechal Duílio, sabe onde fica?” De novo, você tem que admitir, “não”. “Bom, o Bradesco?”, “O Pastorinho ali da Cunegundo Freitas?”, “O trailer do gordo?”. “Não, não, não”, você diz, e agüenta firme, porque assistiu Roma e Sopranos e sabe que é assim que se age ao cair nas mãos do inimigo.

O suplício só termina quando o pedestre tiver arrancado sua última gota de dignidade, quando tiver feito você declarar, em alto e bom som, que está totalmente perdido, que não conhece nada por ali, que está sob seu jugo e fará exatamente o que ele mandar. Só então, com uma cara de quem passa instruções da mais alta complexidade, dirá: “Primeira esquerda, segunda direita, já é a Faustiniano.”

Chegamos ao restaurante, mas eu já não tinha fome alguma. Sabia que não havia sido levado até ali por minha astúcia e valentia, sim pelas armas de um inimigo, ao qual tive que me sujeitar.

Da próxima vez, portanto, que seu marido recusar-se a pedir informação, cara leitora, não se irrite com ele. Não é a imaturidade que o impede, mas os mais antigos códigos de cavalaria. Pense nisso.

bando

Nós, homens, somos seres amaldiçoados: passamos metade da vida buscando a mulher ideal e a outra metade procurando desculpas para sair com os amigos, sem que ela fique brava com a gente.

Mulheres, não nos julguem mal. Há algo de infantil em nossa alma que nunca amadurece. Um sentimento de bando que começa ali no tanque de areia, com quatro ou cinco hominhos cavucando e jogando conversa fora, e jamais se perde. “Que que cê tá fazendo aí, castelo?”. “Não, vulcão. E você?”. “Um túnel”. “Ah, legal. Posso ajudar?”. “Chega aí. Cava desse lado que eu cavo desse, vamos ver se junta”. O futebol de terça à noite, a cerveja domingo à tarde, o boliche ou a pescaria nada mais são do que repetição da mesma cena: quatro ou cinco moleques, sem nenhuma mulher por perto, dedicando-se a alguma tarefa simples e inútil.

Entendam, caros leitores, que não é por machismo que queremos ficar entre os do mesmo gênero, algumas horas por semana. É que a presença feminina sempre nos inibe. Exige seriedade, responsabilidade, maturidade. Diante de uma mulher, não há como não assumirmos nossas inúmeras personas de filhos, maridos, alunos. Por mais a vontade que estejamos, uma parte de nosso ser sempre estará alerta, preocupada em não falar com a boca cheia, não botar mostarda no feijão, usar corretamente os pronomes e plurais. Por que é assim? Porque as mulheres são chatas? Nada disso, é porque não queremos fazer feio, queremos impressioná-las bem, escondendo o Homer Simpson que vive em cada um de nós.

Se você for pensar bem, todos os grandes feitos do homem foram desculpas que arrumaram para ficar com os amigos sem que suas mulheres brigassem. Veja as grandes navegações: você nunca achou estranho que os caras saíssem da Península Ibérica e dessem a volta na África atrás de especiarias? É que eles precisavam de uma ótima explicação para se meterem em barcos por meses, só com homens e tonéis de bebida, parando de porto em porto. Voltando carregados de canela, cravo, cardamomo, açafrão e companhia, a barra ficava um pouquinho menos suja, em casa.

Mais tarde, Cabral, Pero Vaz e sua turma disseram que iam pras Índias, mas cruzaram o Atlântico, chegaram ao Brasil e encontraram várias índias nuas, “com as vergonhas mui saradinhas”, como escreveu Caminha ao rei. O que fizeram nossos portugas, para não dar chabu, na volta? Carregaram seus barcos com troncos de uma árvore de onde se extraía boa tinta vermelha, para tecidos. Disseram, “olha só, querida, erramos o caminho, voltamos meses após o combinado, mas agora você pode, finalmente, tingir as cortinas da sala”.

Assista Apolo 13 e você vai ver que a ida a Lua foi basicamente a mesma coisa. Um bando de homens construindo um brinquedinho capaz de levar três deles até nosso satélite natural. Fazer o que, lá? Picas! Ficar sem tomar banho, batendo papo, urinando num saquinho (sem se preocupar em levantar ou abaixar a tampa), comendo só comida industrializada, depois pousar, descer, coletar umas pedras, entrar na nave e voltar pra Terra. É o tanquinho de areia, elevado à milésima potência. E quando a nave falha e a brincadeira ameaça dar em tragédia, qual é a primeira cena que o filme mostra? A esposa de um deles, puta, ligando pra NASA: “que que tá acontecendo?!”. O cara lá da agência espacial, espécie de líder do tanquinho, diz pra mulher ficar calma, eles vão dar um jeito naquilo. Então convoca todos os cientistas e, por dias a fio, trabalham sem descanso. Claro. O que estava em jogo ali não era só a vida de três seres humanos, mas a palavra de todos os homens da Terra, quando dizemos que não é para elas se preocuparem ao sairmos, que vamos logo ali, encontrar uns amigos, fazer sei lá que coisa simples e inútil, mas voltamos antes do jantar – com um potinho de canela, suco de pau Brasil, uns peixes da pescaria ou uma pedra da lua.